A poucos dias do prazo final para desincompatibilização de chefes do Executivo que pretendem disputar as eleições de 2026, o cenário político do Maranhão permanece marcado por incertezas formais e movimentações intensas nos bastidores. Até esta segunda-feira (30), não há confirmação oficial sobre a saída de gestores de seus cargos, mas os sinais emitidos por lideranças apontam caminhos opostos para o governador Carlos Brandão (sem partido) e o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD).

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Pela legislação eleitoral, o prazo para renúncia termina em 4 de abril — seis meses antes do pleito. Quem não deixar o cargo até essa data estará impedido de disputar qualquer função eletiva neste ciclo.

No caso do Palácio dos Leões, a tendência é de permanência. Carlos Brandão tem reiterado publicamente que pretende cumprir o mandato até 31 de dezembro de 2026. A decisão, no entanto, carrega implicações que vão além da esfera administrativa e alcançam diretamente o equilíbrio de forças políticas no estado.

Nos bastidores, a permanência é interpretada como uma estratégia de preservação de poder. Caso renunciasse, o comando do Executivo estadual passaria ao vice-governador Felipe Camarão, do PT, que assumiria com plenas condições de disputar a reeleição com a máquina estatal nas mãos. Esse cenário é visto como um risco pelo grupo político de Brandão, especialmente diante da pré-candidatura já lançada de seu sobrinho, secretário de Assuntos Municipalistas, Orleans Brandão (MDB), ao Governo do Estado. A decisão de permanecer no cargo também sinaliza um possível rompimento com aliados históricos, como o próprio Camarão e o ex-governador, e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino.

Se, por um lado, o governador tende à estabilidade, na capital o movimento é inverso. Há fortes indicativos de que Eduardo Braide deve renunciar ao cargo até o dia 2 de abril, último dia útil antes do prazo final, para disputar o Governo do Estado. A sinalização ganhou força após o prefeito gravar materiais de pré-campanha ao lado do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.

A possível saída de Braide representa uma aposta de alto risco político. Reeleito em 2024 com ampla margem — quase 70% dos votos —, o prefeito lidera pesquisas de intenção de voto para o governo, com índices que variam entre 35% e 47%. Ainda assim, ao deixar a Prefeitura de São Luís, ele abre mão de sua principal base administrativa e política, entregando o comando da capital à vice-prefeita Esmênia Miranda até 2028.

O risco, nesse caso, é duplo: caso não vença a eleição estadual, Braide ficaria sem mandato até pelo menos 2030, o que pode enfraquecer sua influência política a médio prazo.

Efeitos imediatos e reconfiguração do poder

A eventual desincompatibilização dos dois gestores provoca impactos diretos na estrutura de poder. No cenário em que ambos deixariam seus cargos, o Maranhão veria uma mudança simultânea no comando do Estado e da capital: Felipe Camarão assumiria o governo, enquanto Esmênia Miranda passaria a administrar São Luís.

Essa mudança não é apenas administrativa, mas estratégica. O controle da chamada “máquina pública” — orçamento, articulação política e influência sobre prefeitos e lideranças locais — se tornaria peça-chave na disputa eleitoral. Além disso, a movimentação já provoca reflexos na estrutura do governo estadual. Secretarias têm passado por mudanças, com a saída de titulares que pretendem disputar cargos proporcionais, evidenciando o início do rearranjo eleitoral.

Cenário de alianças e disputa ampliada

A possível candidatura de Braide também estimula a formação de uma frente ampla de oposição ao grupo governista. Nos bastidores, cresce a articulação de uma “mega-chapa” que poderia reunir diferentes forças políticas em torno de um projeto comum para enfrentar o candidato apoiado por Brandão.

Entre os nomes que orbitam o cenário estão o próprio Felipe Camarão, que pode redirecionar sua estratégia para uma candidatura própria ao governo pelo PT, caso seja preterido.

Outro ponto central será a capacidade de transferência de votos. Enquanto Braide concentra sua força eleitoral na capital, o grupo de Brandão mantém capilaridade no interior do estado, sustentado por alianças com prefeitos e lideranças municipais.

“Estabilização forçada”

Caso tanto Brandão quanto Braide optem por permanecer em seus cargos, o cenário político passaria por uma espécie de “estabilização forçada”. Ambos manteriam o controle de suas bases — o governo estadual e a Prefeitura de São Luís —, mas abririam mão de disputar cargos em 2026.

Nesse contexto, Carlos Brandão ficaria fora da disputa pelo Senado e encerraria o mandato em 2026 sem cargo eletivo garantido para o ciclo seguinte. Ou seja, Brandão abre mão de uma vaga quase certa no Senado Federal. Porém, o governador ficará sem mandato a partir de 1º de janeiro de 2027, tendo que buscar um cargo no governo federal ou esperar 2028/2030.

      Vale ressaltar que, ao não sair, ele impede que o vice assuma o governo. Isso mantém o controle da “caneta” e do orçamento estadual nas mãos do grupo Brandão para eleger seu sucessor (provavelmente Orleans Brandão ou um aliado direto).

Paralelamente a esse movimentação, Eduardo Braide adiaria seus planos eleitorais para 2030. Braide prioriza concluir seu segundo mandato e entregar as grandes obras prometidas (como o Novo Trânsito e o Hospital da Criança). Atualmente ele mantém o controle da maior vitrine política do estado. O risco para Braide é que 2026 é o seu momento de maior popularidade.

Se não aproveitar o “vácuo” de poder agora, ele pode chegar em 2030 com uma imagem mais desgastada ou enfrentar um cenário com novos nomes fortes. Sem Braide no páreo para o governo, a oposição estadual perde seu nome mais competitivo nas pesquisas atuais, o que facilitaria a vida do candidato de Brandão.

A possível ausência dos dois principais nomes nas urnas abriria espaço para uma disputa fragmentada pelo Governo do Estado, com protagonismo de lideranças como Orleans Brandão, Felipe Camarão e o grupo de Josimar de Maranhãozinho, conhecido como o “Moral da BR”, que mesmo inelegível após condenação no Supremo Tribunal Federal (STF), por corrupção passiva, com penas entre cinco e seis anos de prisão em regime semiaberto, ele detém o controle do maior bloco de deputados e prefeitos do estado que pode articular a indicação a uma vice-governadoria.

A indefinição também impacta diretamente a corrida pelo Senado, que terá duas vagas em disputa em 2026. Sem a presença de nomes de peso como Brandão e, eventualmente, Braide, o cenário se torna mais aberto, favorecendo candidaturas já consolidadas, como as de Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PSD).

Diante desse quadro, o Maranhão vive um momento decisivo, em que cada movimento — ou ausência dele — redefine alianças, rompe acordos e projeta o equilíbrio de forças para a próxima década. Mais do que uma escolha individual, a decisão sobre a desincompatibilização de Brandão e Braide tornou-se o eixo central de um complexo “tabuleiro de xadrez” político, cujas consequências ultrapassam o pleito de 2026 e alcançam o futuro da governabilidade no estado.